Ecos da Tradição Ibérica: do Barroco ao Renascimento Redescoberto
18 Outubro @ 17:00 – 18:00
Sinopse
Neste recital integrado na 6.ª edição do FIOMS, o jovem organista Miguel Alves convida o público a percorrer diferentes expressões da música para órgão entre os séculos XVII e XX. Do engenho contrapontístico de Froberger à vitalidade da tradição ibérica representada por Larrañaga e Frei Jacinto Sacramento, culminando na evocação histórica de Eduardo Torres, o programa revela a riqueza de linguagens, estilos e sensibilidades que moldaram a evolução da arte organística. Na intimidade acústica da Igreja dos Carmelitas, estas obras reencontram o espaço ideal para fazer ouvir séculos de diálogo entre fé, cultura e criação musical.
Programa
José de Larrañaga (1728–1806)
Sonata de 5.º tono
Frei Jacinto Sacramento (1712–1780)
Tocata em Ré menor
Johann Jacob Froberger (1616–1667)
Capriccio II em Lá menor, FbWV 502
Eduardo Torres (1872–1934)
N.º 20 – In modo antico
Notas ao Programa
Figura relevante da tradição musical hispânica do século XVIII, José de Larrañaga integra a geração de compositores que procurou conciliar as formas barrocas tardias com as novas tendências galantes vindas da Europa. A sua Sonata de 5.º tono reflete esse momento de transição, preservando elementos da tradição modal ibérica ao mesmo tempo que adota uma escrita mais clara e equilibrada.
A obra distingue-se pela elegância melódica, pelo sentido do contraste e pela fluidez discursiva, revelando uma linguagem que privilegia a expressividade e a clareza formal. Nela ecoam ainda as antigas práticas musicais ligadas aos tons eclesiásticos, testemunhando a continuidade de uma herança profundamente enraizada na cultura musical da Península Ibérica.
Entre os compositores portugueses do século XVIII que contribuíram para a afirmação do repertório organístico nacional, Frei Jacinto Sacramento ocupa um lugar de particular interesse. A sua Tocata em Ré menor evidencia a vitalidade e o virtuosismo que caracterizam grande parte da escola ibérica para teclado.
Construída a partir de passagens rápidas, figuras ornamentais e contrastes de textura, a obra explora o carácter improvisatório típico da tocata. O discurso desenvolve-se com energia e espontaneidade, exigindo do intérprete agilidade técnica e sentido retórico.
Nesta música encontramos não apenas um exercício de destreza, mas também a expressão de uma estética em que o brilho instrumental se coloca ao serviço da imaginação e da eloquência musical.
Johann Jacob Froberger é uma das figuras mais influentes da música europeia para teclado do século XVII. Viajante incansável e homem de vasta cultura, reuniu na sua obra influências italianas, francesas e germânicas, contribuindo decisivamente para a formação de uma linguagem internacional.
O Capriccio II em Lá menor exemplifica a mestria contrapontística do compositor. Partindo de um tema breve, Froberger desenvolve um discurso rico em imitações e transformações, demonstrando uma extraordinária capacidade inventiva.
Apesar do rigor estrutural, a música mantém um carácter livre e imaginativo, próprio do género capriccio, onde a fantasia criativa se alia ao domínio técnico. O resultado é uma obra de grande refinamento, situada na fronteira entre a tradição renascentista e as novas sensibilidades barrocas.
Organista, compositor e pedagogo espanhol, Eduardo Torres dedicou uma parte significativa da sua produção à recuperação e valorização do património musical antigo. A peça In modo antico constitui um exemplo particularmente eloquente dessa inclinação estética.
Longe de se tratar de uma mera imitação histórica, a obra recria o universo sonoro dos séculos anteriores através de uma linguagem moderna, evocando modos antigos, linhas melódicas sóbrias e um ambiente de recolhimento contemplativo.
Nesta síntese entre tradição e renovação, Torres demonstra como a redescoberta do passado pode tornar-se fonte de inspiração para novas formas de expressão artística. A peça surge assim como um momento de serenidade e introspeção, encerrando o programa num clima de nobre simplicidade.
Biografia
Miguel Eduardo Ventura Alves, natural de Bragança, é organista titular do órgão ibérico da Basílica de Torre de Moncorvo (2024), onde também leciona aulas de órgão e organiza concertos. É Licenciado em Música, com especialização em Performance de Órgão, na Universidade de Aveiro, sob a orientação de António Mota.
Assiste e participa em conferências e masterclasses em Portugal, Espanha e Alemanha. Trabalhou com professores conhecidos internacionalmente, como Pieter van Dijk, Krzysztof Urbaniak, Roberto Fresco, Enrico Viccardi e António Duarte.
A sua atividade concertista tem-se desenvolvido por Torre de Moncorvo, Igreja da Barra, Catedral de Bragança, Mosteiro de Refojos, Santuário de Vila Flor, Sé de Aveiro, Igreja Matriz da Correlhã. Integra desde 2025 o duo com trompete e órgão, onde aborda música desde o século XVII ao XXI.
Miguel Alves, órgão
Igreja dos Carmelitas, Porto
18 de outubro de 2026, 17h00
“Cada época reinventa a voz do órgão. Neste programa, quatro compositores separados por mais de três séculos encontram-se numa mesma tradição de arte, espiritualidade e imaginação sonora.”
